28 - 07 - 2010
Por: Luís Gerardo Viegas
Escrever algo a propósito 20 anos após o desaparecimento deste dilecto filho de Olhão nunca é demais.
Porque a maioria dos algarvios mais velhos que gostam de ouvir cantar um bom fadista conheceram a sua figura como fadista bem como a sua obra poética e sonora e não só de Valdemar Ramos, mas não será demais deixar aqui nas colunas do “Brisas do Sul” o registo muito sincero da muita admiração e respeito que ao longo de muitos anos mantivemos por Valdemar Ramos, um homem culto e de conversa agradável, sempre disponível para ajudar quem pedisse.
Relembro aqui quando ele, vivendo em Tavira, socorreu pescadores da Fuzeta ao interceder várias vezes junto das autoridades Marroquinas numa época em que a frota pesqueira da Fuzeta pescava nos mares de Marrocos e muitos eram aprisionados pelas forças navais marroquinas.
Valdemar Augusto Ramos nasceu a 3 de Maio de 1923, em Olhão, e faleceu a 28 de Julho de 1990, em Tavira. Falar de Valdemar Ramos e recordá-lo após 20 anos do seu desaparecimento é sempre uma imensa saudade para quem o conheceu e viveu de perto com ele. Valdemar Ramos repartiu a sua vida por Setúbal, Montijo, Olhão, Fuzeta e por último Tavira, onde resta a perene lembrança do fadista Fuzetense.
Eu tive o grato prazer de fazer uma grande amizade com Valdemar Ramos, e muitas das vezes pensava para comigo se admirava mais a personalidade do homem, ou se o artista, porque Valdemar Ramos na sua carreira artística não era só um fadista ou um bom tocador de viola, era também um poeta daqueles com uma alma muito grande «torcendo» sempre para uma filosofia própria do homem que sofre, porque ele também era povo e também sofreu. Valdemar Ramos tinha também uma vincada aptidão para o ilusionismo, e era mesmo bom ilusionista. No estrangeiro, onde esteve várias vezes (porque aproveitava a época baixa dos espectáculos para se deslocar ao estrangeiro) actuou em vários países, não só tocando ou cantando, mas também fazendo espectáculos de ilusionismo. Eu sou um tanto ou quanto suspeito para falar deste grande artista, porque sou da terra de Valdemar Ramos, e a minha amizade para com ele durou mais de 30 anos, e não se pode nunca esquecer.
Mas, uma das qualidades que eu mais admirava nele, e tinha muitas outras, era não saber dizer que não quando iam falar com ele para cantar em espectáculos de beneficência e ele lá ia, e não cobrava nada pelo seu trabalho.
Valdemar Ramos tinha uma outra faceta muito importante que eu e toda a gente adorávamos, é que ele desenhava fachadas de edifícios públicos, e depois, nas suas horas vagas, construía tudo com pauzinhos de fósforos queimados, fazia esses trabalhos com muita mestria, e alguns desses trabalhos estão expostos na Câmara Municipal de Tavira. Portanto Valdemar Ramos era um homem polivalente, e passou algumas dificuldades, a vida dele, por último, foi verdadeiramente muito árdua porque ele foi cantar várias vezes a espectáculos e chorava por dentro por causa da doença que o massacrava. Eu senti que ele era um homem preso à vida, um homem que adorava a vida e que adorava o próximo.
Valdemar Ramos era natural de Olhão, e viveu muitos anos na Fuzeta e aí nasceram alguns dos seus filhos. Era sapateiro antes de enveredar pela profissão de fadista a tempo inteiro, e tinha a sua oficina localizada na antiga Rua do Poço Novo hoje rua Prof. Manuel Carlos.
Foi autor de letras e de músicas chegou a fazer parte dum célebre conjunto musical dos anos 50 que se chamava “O Califórnia” que existia naquela época, na Fuzeta.
Concorreu a concursos da rádio e a jogos florais. Gravou ainda em anos difíceis para os cantores alguns discos e cassetes; esteve presente em festivais e romarias pelo nosso Pais. Foi cantar ao estrangeiro para os nossos emigrantes. Actuou por terras de França - Toulouse, Perpignan e Paris por diversas vezes; no Canadá esteve em Toronto, onde foi convidado a gravar um disco o que veio a acontecer. Actuou em Bruxelas e Namur (Bélgica). Em Espanha também fez alguns espectáculos em Sevilha, Granada, e por aí fora. Viveu os seus últimos anos em Tavira e algumas pessoas a entidades locais desta terra reconhecendo os seus méritos e a contribuição que deu à cultura daquele concelho prestaram-lhe uma derradeira homenagem, em Agosto de 1989, um ano antes do seu desaparecimento. Em 1991 um grupo de cidadãos da Fuzeta incluindo o autor desta memória e a Junta de Freguesia formaram uma Comissão de Honra, para que pudesse trabalhar para a realização de uma homenagem a Valdemar Ramos que também foi, quer queiram quer não um grande Embaixador a nível Concelhio, através dos seus fados, e música que ele cantava com a sua magnífica voz, por terras Estrangeiras. Efectivamente, e depois de esta comissão ter trabalhado para realização do evento, de tantos pedidos e convites formulados a grupos para actuar no espectáculo e entidades oficiais, viu-se obrigada a desistir da malograda homenagem, por escasso apoio na época da Câmara de Olhão.
Foi na Praça Dágadir
I
Foi na Praça Dágadir
Arranjei moira encantada
Sonhando, estava a dormir
Acordei não tinha nada
II
Que noite tão desastrada
Que eu recordo sempre a rir
Tinha muito, estou sem nada,
Foi na Praça Dágadir
III
Eu estava sempre a sentir
Minha alma apaixonada
E numa noite a dormir
Arranjei moira encantada
IV
Esse sonho encantador
Foi na Praça Dágadir
Era um Rei, era um Senhor
Sonhando, estava a dormir
V
Foi na Praça Dágadir
Que arranjei a namorada
Em sonho, porque a seguir,
Acordei; não tinha nada.
Autor Valdemar Ramos
Nossa Senhora e o Mar
I
Ó Fuzeta tão branquinha
Duma beleza sem par
Promoveram-te a Rainha
Nossa Senhora e o Mar
II
És linda e acolhedora
E aos pobres tu sabes dar
Dá-te imagem sedutora
Nossa Senhora e o Mar
III
Teu Povo em qualquer momento
De constante labutar
Não exclui do pensamento
Nossa Senhora e o Mar
IV
Tens chaminés rendilhadas
Lindas moças d' encantar
Homens de mãos calejadas
Nossa Senhora e o Mar
V
Como noiva de eleição
Quando pensares em casar
Padrinhos, já sei que são
Nossa Senhora e o Mar
Autor Valdemar Ramos
28 - 07 - 2010
A APOS publicará mensalmente no jornal Brisas do Sul um artigo sobre uma personalidade olhanense. No número actual a personalidade olhanense a divulgar é “Francisco Guerreiro”
Francisco Guerreiro
Lutador antifascista, nascido em 1917 no Sítio da Igreja (Pechão) e falecido em 2003, foi filho de pai operário e mãe doméstica.
Tendo nascido pobre apenas conseguiu concluir a instrução primária mas, devido a uma enorme curiosidade intelectual, tornou-se um autodidacta dedicando-se ao estudo de vários assuntos, sobretudo na área da história e sociologia.
Começa a trabalhar muito cedo em vários ofícios por conta de outrem, paralelamente ao amanho da terra em pequenas propriedades que possuía.
Acreditava que na base da pobreza estaria a fraca instrução do povo, pelo que dedicou-se muito à educação dos adultos analfabetos. Isto valeu-lhe a perseguição política do Estado Novo.
Esteve preso em 1938, fez parte do Movimento de Unidade Democrática, participou no célebre comício de Bela Mandil em 1947 e tomou parte activa na campanha eleitoral de Norton de Matos em 1949, e na campanha de Humberto Delgado em 1958.
Depois destas eleições voltou a ser detido pela polícia política, e foi expulso do seu emprego de escrivão da Junta de Freguesia de Pechão, o que o fez entrar na clandestinidade e emigrar para a Argentina.
Na Argentina, em 1952, escreve "Um Aporte e Testemunho" sobre a situação política em Portugal, onde retrata a asfixia moral do País na época.
Após o 25 de Abril regressa a Portugal, é readmitido no seu serviço e é candidato do MDP/CDE à Assembleia Constituinte em 1975.
Faz parte da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Olhão entre 1974 e 1976
É eleito Presidente da Junta de Freguesia de Pechão pela APU (coligação dominada pelo Partido Comunista) em 1979, 1982 e 1985.
Dedica-se ao estudo da sua freguesia através da arqueologia (colecciona moedas romanas aí encontradas) e escreve a "Pequena Monografia de Pechão".
Publica também um livro de poesia "As minhas quadras singelas e outros poemas" em 2002.
Pode ver ainda a biblioteca virtual sobre Francisco Guerreiro.
Bibliografia: Villares, João - Quem é quem em Olhão? - Livraria Clinar, 1º Vol., Olhão, 2004. Guerreiro, Francisco - Pequena monografia de Pechão - Algarve em Foco, Faro, 1988.
